O Brasil está envelhecendo, mas o sistema de saúde ainda age como se fosse um adolescente

Foto: Divulgação
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Dr. Fabio Vilas-Boas

Cardiologista | Doutor em Ciências (USP) | Titular

Academia de Medicina da Bahia

O Brasil passou por mudanças rápidas. Em poucas décadas, deixamos de ser uma nação jovem para nos tornarmos uma sociedade que envelhece aceleradamente. Essa transformação afetou drasticamente as necessidades de saúde da população. Hoje, lidamos com um aumento nas doenças crônicas, mais fragilidade, maior dependência funcional e um número crescente de pessoas que, após eventos agudos, continuam necessitando de cuidados contínuos.

No entanto, nosso sistema de saúde, tanto público quanto privado, ainda está excessivamente focado em tratar crises, em vez de acompanhar as pessoas ao longo de suas vidas. Essa é a grande contradição do nosso tempo. O Brasil envelheceu, mas a lógica de atendimento ainda parece juvenil. Ela continua desenhada para infecções agudas, traumas e situações isoladas, como se o papel da saúde fosse apenas intervir em momentos críticos e depois desligar-se.

A realidade, porém, é bem diferente. O paciente idoso de hoje frequentemente não precisa apenas de um procedimento ou alguns dias no hospital. Ele requer reabilitação, ajustes na medicação, prevenção de novas crises, suporte de uma equipe multiprofissional, organização do retorno para casa e, muitas vezes, cuidados paliativos adequados. O problema é que nosso modelo ainda considera que a alta hospitalar significa o fim dos cuidados, quando, na verdade, muitas vezes é apenas o começo de uma fase mais complicada.

É nesse intervalo que surgem reinternações evitáveis, perdas funcionais, complicações clínicas e sofrimento para as famílias. Muitos pacientes saem do hospital sem um plano claro de continuidade, enquanto outros voltam poucos dias depois porque não tinham o apoio necessário. E tem ainda aqueles que ficam ocupando leitos em hospitais de alta complexidade não porque precisem, mas porque não existe um lugar intermediário adequado e eficiente para sua recuperação.

Essa desorganização acaba custando caro para todos: para o sistema público, que perde eficiência; para os planos de saúde, que lidam com internações prolongadas e desperdícios; para os hospitais gerais, que ficam sobrecarregados com pacientes que não se encaixam no perfil de leito agudo; e, acima de tudo, para os pacientes e suas famílias, que enfrentam a insegurança de um cuidado fragmentado e sem coordenação. 

É preciso ser claro: o Brasil não precisa apenas de mais hospitais; ele precisa dos hospitais certos, nos lugares certos e para os pacientes certos.

Precisamos expandir as estruturas focadas na transição dos cuidados, na reabilitação intensiva, no manejo de condições crônicas complexas, no suporte clínico de pacientes frágeis e nos cuidados paliativos integrados. É preciso reconhecer que envelhecer não é uma exceção, mas a nova realidade do país. Nesse contexto, iniciativas inovadoras não são apenas desejáveis; são essenciais.

Em breve, será inaugurado o Hospital Casa de Retiro São Francisco, projetado para preencher essa lacuna histórica do sistema de saúde brasileiro. O hospital, voltado para a transição dos cuidados, reabilitação e atenção humanizada a pacientes crônicos e idosos frágeis, vai oferecer um ambiente acolhedor, seguro e bem estruturado para aqueles que não precisam mais da infraestrutura de um hospital agudo tradicional, mas ainda necessitam de internação, acompanhamento multiprofissional e continuidade terapêutica.

Para muitos idosos, esse será finalmente o local mais adequado: nem alta precoce e insegura, nem permanência inadequada em leitos de alta complexidade, mas um espaço pensado para recuperar funcionalidades, preservar a dignidade e preparar, com responsabilidade, o próximo passo no cuidado.

O país envelheceu. Agora, é a vez do sistema de saúde amadurecer. Adiar essa mudança é manter um modelo caro, congestionado e cada vez mais incapaz de atender à realidade da população. Enfrentar essa questão é reconhecer que viver mais deve significar também viver melhor.

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