Dr. Fabio Vilas-Boas
Cardiologista | Doutor em Ciências (USP) | Titular
Academia de Medicina da Bahia
Quando falamos sobre cuidados paliativos, estamos diante de uma pergunta essencial na medicina: como proporcionar um bom cuidado a alguém quando a cura já não é possível. Para mim, essa é uma das questões mais dignas da prática médica, porque nos força a reconhecer que a função do médico não se encerra quando a cura deixa de ser uma opção. Na verdade, é exatamente nesse momento que a responsabilidade de cuidar se torna ainda mais humana, complexa e necessária.
A medicina moderna passou mais de cem anos focada em prolongar a vida, e isso gerou conquistas incríveis. Mas os cuidados paliativos nos lembram que também precisamos saber cuidar da vida que resta. E cuidar do que resta não significa retroceder ou desistir. Não é aceitar passivamente a doença. Os cuidados paliativos não são o “fim da medicina”, mas uma medicina que prioriza a dignidade.
Na América Latina, enfrentamos uma barreira que vai além da técnica: é cultural. Muitas vezes, ainda confundimos cuidados paliativos com desistência. Ao contrário, essa é a forma mais humana de se fazer medicina. A Organização Mundial da Saúde estima que 56,8 milhões de pessoas no mundo precisem de cuidados paliativos por ano, mas apenas 14% recebem esse tipo de cuidado. Além disso, mais de 70% dessa necessidade se concentra em países de baixa e média renda, incluindo nossa região. Isso deixa claro que o déficit é significativo e estrutural.
Outro problema comum nos sistemas de saúde é a introdução tardia dos cuidados paliativos. Em países desenvolvidos, entre 40% e 60% dos pacientes com câncer ainda passam a receber cuidados paliativos apenas nas últimas semanas de vida. Isso significa perder tempo valioso para controlar sintomas, organizar decisões, apoiar a família e aliviar o sofrimento. Sabemos que a introdução precoce dos cuidados paliativos pode reduzir internações hospitalares em até 30% e melhorar a qualidade de vida e o quadro de depressão.
Um ambiente hospitalar inadequado pode aumentar o sofrimento. A ambiência típica de um hospital de agudos, com barulho excessivo, iluminação intensa, falta de espaço para interação com a família e rotinas desumanas, piora a experiência do paciente, especialmente em um momento tão vulnerável. Em contrapartida, ambientes humanizados podem diminuir a percepção da dor e até a necessidade de opioides, como mostram estudos sobre arquitetura terapêutica. Por isso, insisto em um ponto central: hotelaria hospitalar não é sinônimo de luxo. É parte essencial do tratamento. É a qualidade terapêutica do cuidado.
O cuidado paliativo verdadeiro envolve três protagonistas: o paciente, a família e a equipe de saúde. Se algum desses elementos falhar, o cuidado fica incompleto. A presença da família deve ser vista como parte do tratamento. Treinar os profissionais em comunicação de notícias difíceis é tão importante quanto prescrever medicamentos. Não basta apenas controlar a dor; é preciso discutir prognósticos, ouvir medos, acolher angústias e ajudar em decisões difíceis com sinceridade e compaixão.
E não podemos nos esquecer da equipe. O burnout afeta até 60% dos profissionais que lidam com pacientes em fim de vida. Cuidar de quem cuida é fundamental para manter a qualidade do atendimento.
Vejo aí uma conexão importante com os hospitais de transição. A maioria dos sistemas foi criada para dois extremos: o tratamento intensivo e os cuidados em casa. Falta um nível intermediário. É nesse espaço vazio que muitos pacientes acabam ocupando leitos de UTI desnecessariamente ou retornando para casa sem a devida assistência. Os hospitais de transição, ao mesclar reabilitação, gestão de doenças crônicas complexas, apoio familiar e cuidados paliativos, oferecem uma solução racional e humana para essa lacuna.
Nesse contexto, a inteligência artificial surge como aliada valiosa da hotelaria hospitalar em cuidados paliativos, não para substituir o humano, mas para ampliar sua capacidade de cuidar melhor. Ao integrar dados clínicos, preferências do paciente e rotinas operacionais, a IA pode personalizar iluminação, temperatura, ruído, alimentação e conforto ambiental, além de antecipar demandas de limpeza, lavanderia, dietas e suporte às famílias. Também pode ajudar a equipe a identificar precocemente sinais de dor, delirium, desconforto ou agravamento clínico, liberando tempo para aquilo que realmente importa: escuta, presença e acolhimento. Em síntese, a inteligência artificial pode cuidar dos processos para que os profissionais possam cuidar das pessoas.
O verdadeiro sucesso da medicina não se resume a curar doenças. Está em assegurar que ninguém enfrente o sofrimento sem cuidado, dignidade e compaixão. O hospital do futuro não será apenas um centro de tecnologia, mas também um espaço de cuidado humano, onde arquitetura, hospitalidade e medicina colaboram para aliviar o sofrimento. A medicina moderna teve um papel incrível em prolongar a vida. Agora, o desafio é garantir que esse tempo extra seja vivido com dignidade, conforto e humanidade.
E é com esse propósito que iremos inaugurar em Salvador o Hospital Casa de Retiro São Francisco, um espaço de reabilitação física, psicológica e espiritual para pacientes internados no momento mais delicado das suas vidas, onde medicina, hospitalidade e compaixão se unem para garantir que cada pessoa seja cuidada com dignidade, conforto e humanidade.