Canetas emagrecedoras e risco cardiovascular: ciência, benefícios e perigos do uso sem orientação

Foto: Divulgação
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Dr. Fabio Vilas-Boas

Cardiologista | Doutor em Ciências (USP) | Titular

Academia de Medicina da Bahia

Nos últimos tempos, tenho recebido muitas perguntas sobre as famosas “canetas emagrecedoras”. Geralmente, vem com uma certa expectativa: “Doutor, elas realmente ajudam o coração?”

A resposta é técnica, mas preciso ser honesto.

Sim, há uma boa quantidade de evidência científica mostrando que os agonistas de GLP-1 — como semaglutida e tirzepatida — realmente diminuem eventos cardiovasculares em pacientes que estão em alto risco. Mas não é só uma questão de emagrecimento. Ensaios clínicos têm mostrado que essas medicações ajudam a reduzir infartos, AVCs e mortes cardiovasculares em grupos de pacientes bem selecionados. Isso é um avanço significativo na medicina.

Mas aqui que o problema começa.

Esses medicamentos deixaram de ser tratados como uma terapia para a obesidade — que é uma doença crônica complexa — e passaram a ser vistos como uma solução rápida e estética. Isso me preocupa.

A obesidade visceral não é só uma questão de estética. É sobre inflamação crônica, resistência à insulina, problemas no endotélio e um risco aumentado de aterosclerose. É como uma doença cardiovascular que está se formando em silêncio. Quando bem indicados, essas canetas podem ajudar como parte de um plano de tratamento. Mas, usadas sem critério, podem se transformar em mais um erro metabólico.

Estou vendo pacientes começando tratamento sem uma avaliação cardiovascular completa. Sem análise de risco, sem acompanhamento laboratorial e sem um plano de longo prazo. E o pior: eles interrompem o uso de forma abrupta, o que pode causar um efeito rebote significativo.

Esses medicamentos não são inofensivos. Efeitos como náuseas intensas, desidratação, pancreatite, cálculos biliares e perda de massa magra são algumas das possíveis consequências. Além disso, perder peso rapidamente não substitui mudanças no estilo de vida. Sem uma base comportamental, esses resultados não são sustentáveis.

A medicina não pode seguir modas.

O ponto crucial não é ser contra o uso dessas medicações. Na verdade, sou a favor quando há uma indicação clara, uma avaliação criteriosa e um acompanhamento próximo. O que não podemos aceitar é o uso indiscriminado, como se fosse um atalho sem consequências.

A obesidade é uma doença crônica. O tratamento é uma estratégia de longo prazo.

O risco cardiovascular precisa ser medido, não apenas presumido. E é aqui que o cardiologista desempenha um papel fundamental.

Estamos treinados para avaliar o risco global, identificar doenças ateroscleróticas subclínicas, interpretar marcadores metabólicos e ajustar as terapias de forma segura, integrando o tratamento farmacológico à prevenção cardiovascular estruturada.

A pergunta certa não é “posso usar a caneta?”.

A pergunta correta é: “qual é o meu risco cardiovascular e como posso reduzi-lo de forma segura?”

Quando ciência e responsabilidade andam lado a lado, os resultados aparecem.

Quando a medicina se transforma em moda, os riscos aumentam.

Escolher o caminho certo faz toda a diferença — especialmente quando falamos do coração.

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